Cartagena - Bogotá

Quando minha família decidiu sair da minha terra natal e mudar se para a Colômbia, meu coração se encheu de medo. Cartagena de las Índias me parecia um lugar muito distante, inclusive muito longe do que eu tinha de planos. 
Num primeiro momento me desagradou a cidade. Eu era a única rubia em meio a tantos negros. Alguns me olhavam de baixo, outros de lado, as vezes até se podia ver suas caretas por debaixo de seus trapos. As mulheres tinham um jeito mole de andar, com panos na cabeça e seus quadris largos. Vendiam todos os tipos de fruta que se podia imaginar. Roupas coloridas, casas coloridas, mar de sete cores. Nos primeiros meses isso me deixou com náuseas. 
Mamá havia chamado o senhor Rodrigues, um bom médico da região para que me consultasse. 
- Diga: Trinta e três! 
- Que dizes? 
- A moça nem espanhol sabe falar. Suspeito que não se ambientou à cidade. O melhor remédio nesse caso é o tempo. 
E os homens. Andavam com o peito estufado como as palomitas da Plaza de Los Coches. Com os braços pendendo ao lado do corpo, como se jogassem capoeira. 
Os colombianos eram diferentes. Tinham um jeito de índio. Com sua pele marrom e seus olhos puxados. Os cabelos negros e lisos. Andavam pela cidade todos alvos em trajes ofuscastes à luz do sol. 
Rezei todos os dias para a Virgem de Carmem, uma estátua da santa que boiava na baia de Caratgena, e que aparecia em noites de maré baixa. Rogava que me tirasse desta cidade. Pois estava ela acostumada a proteger os navegadores. Eu também era uma bucaneira. Perdida em minha própria cidade. 
Roguei também para Nossa Senhora da Candelária, o fiz escondido, pois era a santa dos negros da cidade. 
Me perdia pela cidade amuralhada passeando entre aquela gente. Gostaria de ser como eles pois aí então eu seria invisível. E poderia talvez visitar lugares proibidos para mim. Os clubes de salsa onde as mulheres dançavam quase nuas e coladas ao corpo de seus amantes. Aquilo para mim me parecia algo proibido e excitante, mas eu só ouvia falar quando as empregadas cochichavam em algum canto da sala. Diziam coisas em espanhol e banto. Eu pescava algumas palavras e já podia alagar minha imaginação. 
Numa das tardes mais quentes que se teve notícia na história da cidade, eu estava a passear sem minha dama de compania. Já me atrevia a despencar pelas rua de Guetsemani e Manga, assim como na cidade velha , sem ela. Nesse dia de intenso calor, entrei em uma igreja para me refrescar à sombra. Minha vista escurecia e eu pensava que ia desfalecer. Me abanava com um leque, uma das poucas peças que eu havia trazido da minha terra. Ao levantar os olhos para o altar, vejo San Domingos com sua coroa de espinhos como um cristo. Fecho os olhos para orar ao bom santo. Ao abrir os olhos novamente um homem está me mirando, abaixo os olhos e acelero as abanadas.
O homem era um típico Cartagineiro. Um colombiano daqueles que se vestem com roupas beges e se afugentam do sol com um chapéu Panamá sempre impecável. O homem olhava de um jeito que me fez encostar - se no banco da igreja. Naquele momento desejei estar ali naquela cidade. Desejei olhar para ele com a mesma devoção que eu olhava para os altares. Sorri. Ele se aproxima e ao sentar- se no banco da frente, vira- se e me pergunta se era espanhola.  Pelo leque ele deduz. 
És uma reina de beleza ou o quê?
Gracias senhor. 
Para qual santo reza?
Para todos. 
Conhece a lenda dessa igreja?
Não senhor. 
Señor Carlos Herendía, a las ordens. 
E parava o olho sobre minha boca, como num momento raro. 
Qual a lenda?
Dizem os cartagineiros, que quem entra nessa igreja, deixa um pedaço do coração nela. 
Que olhos profundos aquele homem tinha. Já havia eu perdido muitos pedaços do meu coração aquele momento. 
Devo convidá- lá para visitar o bairro dos escravos. Deveria ver. 
Naquele momento me enchi de medo e vontade, que de tão misturados já eram um outro sentimento. Minha cabeça girou mais um pouco, cuspindo pela minha boca um frenético: si!!!
Os próximos momentos foram como se eu estivesse folheando um álbum de fotografias. A voz grave de Carlos me guiava pelos passeios da antiga cidade. 
Ia na frente muitas vezes. Me mostrava os balcões das casas, tocava em todos os chamadores das portas, apontava tudo e falava de tudo. Fui me perdendo por suas palavras e pelas ruas. Andava na suas espaldas. Todas as vezes que olhava para trás minha alma se congelava e eu podia ver o contorno de seu bigode, o colorido de seu sorriso. Cumprimentava alguns homens enquanto andávamos. 
Chegamos ao bairro dos negros lá pelo meio da tarde. 
Entramos em uma casa para nos refrescarmos, alguns homens nos ofereceram refrescos com gelo. Nem poderia imaginar que eles tivessem essas especiarias por aqui. Alguns navios que chegavam da terras novas, onde se chamavam Estados Unidos, traziam o gelo. 
Ao fundo da casa e dentro do pátio, havia um jardim. Os grandes pássaros azuis do Caribe moravam ali sem precisar de gaiolas. Alguns casais dançavam valenato. Uma dança trazida das tribos da África. Nos aproximamos para observar. Tinham um jeito de movimentar os pés que era hipnótico. Os quadris e as tetas balançavam, eram as carnes pretas que reluziam com o suor. Tomavam aguardente antioqueña e se abanavam com grandes leques de palha. Suas risadas eram altas e se podia avistar suas gargantas. Permanecemos a tarde toda ali. Sob a luz rala do sol que entrava pela clarabóia. Com o som forte da viola e a voz de alguns que cantavam de tempos em tempos. 
Tinha um feitiço naquele lugar. Eu sentia como se a vida inteira estivesse esperando aquele momento de estar ali. Carlos nem me olhava mais. Misturava- se com a paisagem, me deixava como uma fumaça no ar. Vez ou outra tirava do bolso um lenço e enxugava o suor na testa. Estava sempre sorrindo e sempre impecável como num desenho. Partimos. Eu deveria voltar para casa. Ele também. Ao passarmos pela porta seu braço se tocou suavemente ao meu. Que estranha sensação, que sempre lembrarei, mesmo tendo se passado anos. Assim como o silêncio do lado de fora da casa. Passamos pela parte de fora da muralha. O sol já estava partindo também. Deixava na bahia de Cartagena uma cor rósea. Estávamos vivos e atentos. Não era algo comum. Fui para casa e ele se foi. Saiu dizendo que voltaria as 10. Nunca mais voltou. 
Toda vez que eu andava pela cidade, toda vez que alguma embarcação atracava no porto, sempre imaginei que fosse ele chegando. 
Nunca deixei de esperá-lo. Naqueles incontáveis dias de calor e fome em que meu corpo se consumia. Imaginava o que não foi. Lembrava dos detalhes com som e cheiro. Meus olhos, eu bendizia, por ter visto e vivido aquele dia ao lado dele. 
Numa notícia inesperada, que me fez acordar por inteiro, foi minha família cigana, novamente querer se mudar. 
Nesse dia senti, sabia que longe dessa cidade de sol e longe dele, eu precisaria achar alguma desculpa para estar viva. 
Partimos para as terras altas. Meu corpo sofreu com o mal da montanha. Vento e garoa não deixavam que eu respirasse direito. De toda a corte que nos acompanhava, eu era a que mais sofria. Ninguém saberia que o mal que eu tinha era ter deixado uma história pra trás. História sem fim, aguça a curiosidade de qualquer mulher. Pois bem, nessa época eu já contava com os meus 35 anos. Meus pais haviam me prometido a um nobre senhor de Bogotá. Eu era assim, não consegui mais lutar com o meu destino. 
Os homens dessa cidade eram elegantes. Sempre muito bem cobertos e com tecidos nobres. Belos e respeitadores, mas nos olhos um jeito estranho de se comunicar. Deixando rubra as faces da mais desonrada dama. A cidade era grande. Estendia-se entre a cordilheira. Suas casas de ladrilhos vermelhos que deixavam o fim da tarde de uma cor de fogo. 
No primeiro dia lá, conheci o senhor Nestor, aquele que seria meu futuro marido. Ao caminharmos lado a lado, eu ficaria imaginando como seria nosso futuro. Mas ele, vivia no passado. Um periodista muito reconhecido, sempre ligado aos fatos históricos que me contava. Era um jovem entusiasta. Enquanto atravessávamos pela praça Simón Bolívar, contava-me sobre a revolução e toda a guerra que culminou com a independência de terras espanholas. Esforçava-se para me fazer entrar em seus contos. Parava em frente a Casa da República, o Palácio dos Brigadeiros, sempre com aquela luz nos olhos. Mostrava tudo e de tudo sabia. 
Por um momento fiquei imaginando se minha vida seria essa. Ser guiada por homens e suas histórias que sempre me facinaram. 
Eu sabia, quando entrei na Catedral Maior de Bogotá, que minha história ali começara. Queria eu também escrever meu roteiro, queria eu levar esses homens pelas mãos e ter o que mostrar a eles. 
Agora eu conduzia e decidi isso ali

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