E quando eu for embora Deus vai me dar sem demora Um cantinho de presente Com o que eu sonhei e Do concreto foi ausente Que os santos me dêem esse contingente A horta de tomates que um dia projetei pra gente Semeei cada planta e semente Na imaginação de você colher e comer Já estava tomado Por gafanhoto danado Antes mesmo do carnaval Quem foi que fez o mal? Pra horta desmanchar Lá pras bandas do meu pensar Disse que ia ali e já voltava Num samba pouco antes do sol nascer Voltou já era muito longe Já era pra lá do anoitecer Daquele dia que prometeu vir Disse que o mar estava brabo Que precisava dos trocados Do barco pra viver Comemorar seu comer Mas voltou com uma sereia Dessas que se apresentam na televisão E são chacrete com cabelo de espaguete Sem chance contra meu feijão Do auditório eu gritava feito tiete Pra você dizer que não E a horta de tomates Que só na minha cabeça existiu Peço de gratidão somente um dia Em que a gente morre e Deus Querendo nos dar uma alegria Dá um regalo pro ser que era vivente Não pediria Brad Pitt e nem Antonio Banderas. Pediria você sentado numa cadeira Comendo os tomates que te plantei E eu assistindo tudo E eu me rindo do seu jeito Lambuzado e desfeito Na planta que colhi Dos frutos mais bonitos e vermelhos que eu já vi Se não for em vida será no céu E eu como um bom menestrel Me farto disso com as letras Rezando pra que um dia isso aconteça.
Os mais difíceis lutos De se viver São dos defuntos que caminham: Ainda esbarram com você nos corredores Passeiam alegremente pelas ruas Conseguem até almoçar no mesmo restaurante Felizes daqueles que não enxergam mais seus mortos Que os tem em uma caixa fechada A prova de tudo Que conseguem sarar o coração Com os olhos cegos da imagem
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