Desmobiliário
Descobrir que o marido traía, não foi difícil. Cheiro na camisa, cabelo da cor diferente do seu, no banco do passageiro do carro, passar o sábado em casa.
Difícil foi engolir a comida. Na hora do almoço queria gritar, quebrar pratos, cair aos prantos.
No jantar, bater, envenenar a comida.
Por fora, a face da esposa não se alterava, engolia tudo com mais esforço e pronto.
Mas era na boca da madrugada que ela, fazendo seu pão, sovando a massa, punha-se a pensar. Sovava aquilo, como se tentasse colocar o ódio embrenhado na mesa.
Apertou cada pão, com todos os gemidos da alma, que gritava para ninguém ouvir.
A velha mesa, gasta só de um lado, denunciava, revelava, quem ia ali de pé.
Com os punhos serrados sobre o trigo, não percebia as minúsculas partículas que arrancou das lascas da madeira. Que foram por ela colocados, uma a uma na massa fofa.
Eram ingeridas lentamente pelo homem durante as refeições. Mastigadas barulhentas, enquanto milimétricas fagulhas lhe atravessavam o estômago.
Alguns anos já se passavam, o jardim já não é o mesmo, o casal acompanha o tempo ainda sob o mesmo teto.
Parados, esperavam na sala, resultado do Raio X. Frente ao médico que chega, ficam suspensos, erguidos pelas palavras que virão.
O médico declama, a poesia do amor, enxergando no esqueleto do homem que ali sobrara algo fatal.
- Uma mesa se faz toda inteira!
A mulher então surpresa, exprime sua falta de intenção no terrível achado e chora sem freios.
O homem a consola, dizendo que a mesa, não vinha da comida.
A mesa também havia feito ele sem querer.
Era de uma casa que ele não foi morar e decidia todo o dia entre o bem e o mal e o sim, tudo junto ou não se perdia a cada dia, saindo do coração. A casa que não escolheu, tinha sim seu mobiliário.
Só não tinha ele dentro.
Invertido nas batidas do confuso órgão, pôs os móveis dentro dele. Usou desculpa de que era, ele próprio a casa dela.
Por isso nunca tiveram lugar nenhum e pra casa da esposa voltava a cada dia.
Bebia de dois venenos, comendo o pão que a mulher amassou, longe do amor que a vida fermentou.
Difícil foi engolir a comida. Na hora do almoço queria gritar, quebrar pratos, cair aos prantos.
No jantar, bater, envenenar a comida.
Por fora, a face da esposa não se alterava, engolia tudo com mais esforço e pronto.
Mas era na boca da madrugada que ela, fazendo seu pão, sovando a massa, punha-se a pensar. Sovava aquilo, como se tentasse colocar o ódio embrenhado na mesa.
Apertou cada pão, com todos os gemidos da alma, que gritava para ninguém ouvir.
A velha mesa, gasta só de um lado, denunciava, revelava, quem ia ali de pé.
Com os punhos serrados sobre o trigo, não percebia as minúsculas partículas que arrancou das lascas da madeira. Que foram por ela colocados, uma a uma na massa fofa.
Eram ingeridas lentamente pelo homem durante as refeições. Mastigadas barulhentas, enquanto milimétricas fagulhas lhe atravessavam o estômago.
Alguns anos já se passavam, o jardim já não é o mesmo, o casal acompanha o tempo ainda sob o mesmo teto.
Parados, esperavam na sala, resultado do Raio X. Frente ao médico que chega, ficam suspensos, erguidos pelas palavras que virão.
O médico declama, a poesia do amor, enxergando no esqueleto do homem que ali sobrara algo fatal.
- Uma mesa se faz toda inteira!
A mulher então surpresa, exprime sua falta de intenção no terrível achado e chora sem freios.
O homem a consola, dizendo que a mesa, não vinha da comida.
A mesa também havia feito ele sem querer.
Era de uma casa que ele não foi morar e decidia todo o dia entre o bem e o mal e o sim, tudo junto ou não se perdia a cada dia, saindo do coração. A casa que não escolheu, tinha sim seu mobiliário.
Só não tinha ele dentro.
Invertido nas batidas do confuso órgão, pôs os móveis dentro dele. Usou desculpa de que era, ele próprio a casa dela.
Por isso nunca tiveram lugar nenhum e pra casa da esposa voltava a cada dia.
Bebia de dois venenos, comendo o pão que a mulher amassou, longe do amor que a vida fermentou.
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