Sempre me lembro daquele senhor que morava naquela pensão comigo. Porta enferrujada, cheiro de cigarro. Escutei umas batidas na madrugada, pouco antes de amanhecer.  Como um tapa na cara o barulho me fez acordar. Eu curioso levantei. Qualquer coisa que acontecia naquele lugar era repertório pro livro que provavelmente eu escreveria um dia. 
Vi o velho na porta do banheiro estapeando o próprio corpo. Quando ele me viu achou se na obrigação de me explicar. 
Há 20 anos não usava toalha de banho. Foi tirando aos poucos o vicio. Primeiro passou uns 10 anos só usando uma toalha de rosto, depois passou para um lenço de bolso. E hoje, já reabilitado, dava tapas no corpo para tirar o excesso de água. Mas vicio que é vicio muda de lugar e não desaparece. Sempre que ficava com o corpo à mostra no vento frio, dava 10 espirros. Podia contar no dedo. Não falhava. 
Um dia acordei com os espirros do velho homem. Eram oito. O silencio veio em seguida. Nem mais tapas nem mais espirros. O homem ia fazer outro tipo de barulho agora no céu. 
Não demorou muito começou a chover. Eram águas e raios.  
Velho barulhento: pensei. 

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