O HOMEM DOS SAPATOS
Era um bom homem, havia rumores dele na minha cidade. Algum jornal velho que voava na praça e vinha me parar pregado no pé. O vento me obrigava a ler sobre ele. Eram notícias sobre seus muitos feitos. De andanças pelo mundo a gastar a sola dos sapatos, que, aliás, não tinha onde os guardar, pois não tinha casa.
Eu me perguntava:
-Pra que tanto sapato, meu Deus?
E dizia em voz alta, um jeito que meus pensamentos acharam de se soltar por aí: falava sozinha. Alguns me tiravam como louca, não era não, era o jeito da solidão. Fazendo-me refletir agora mesmo no meio da praça, sobre as chinelas de um homem que eu nem sabia quem era. Ficava imaginando um único par de botinas dele que conteria na sua sola centenas de pedaços de terra. Um torrão de cada lugar que pisou no mundo. Melancólicos sapatos, que no entanto, não tinham onde se guardar. Em cada vila um armário diferente, mas sempre a mesma visão: tristes pés deitando-se sozinhos.
Era um bom homem.
Eu nunca pedi para conhecê-lo. Nunca pedi que me contassem dele, que jeito? As pessoas falam umas das outras. E as outras dele me falavam:
-Caixeiro viajante, de grande renome em todas as terras.
-E vende o quê?
Eu nunca pedi para conhecê-lo. Nunca pedi que me contassem dele, que jeito? As pessoas falam umas das outras. E as outras dele me falavam:
-Caixeiro viajante, de grande renome em todas as terras.
-E vende o quê?
Alguém perguntava noutro lado da sala. Dele todos sabiam falar.
-Vende sonhos.
Eu novamente deixando escapar meus pensamentos:
-Vende sonhos.
Eu novamente deixando escapar meus pensamentos:
-Assim é fácil! Sonhos todo mundo quer comprar.
E encerrava assim o assunto.
Lá vou eu nesse dia que me encontrei com esse homem. Os meus sonhos eu mesma fabricava, era mais barato. Nunca carreguei ouro nem prata nas costas, nenhum par de brincos nas orelhas, somente um par de sandálias. Dentro dos vestido de trapo que eu tinha, ficava a sonhar meus sonhos baratos. Muito espaço no meu armário e muitos sonhos no baú. Na pequena cidade esse era meu destino.
Sim, essa é a parte em que nos encontramos. O bom homem e eu, num descompasso entre o mais puro linho e o vestido de pano. Quem viu de fora achou fora de moda esse nosso encontro. Aos olhos dos outros não era possível:
-Tão distintos assim, como preto e o marfim...
-Lua e sol em ballet desencontrado, no céu estrelado...
-Diamante e carvão, se misturando no mesmo chão...
Eis que se encontraram, ele vendendo e eu comprando. Uma espécie de comércio do amor. Os afetos ali expostos, como se fossem frutas em uma banca. Entre uma palavra e outra era inevitável uma feira de sentimentos. Seja lá o que os outros viam, não viam com os nossos olhos. Esse supremo senhor da verdade, onde não se consegue camuflar a alma. No final daquele dia cada um pra um lado. Ele novamente sem ter onde guardar tantos sapatos e eu sem saber onde guardar tanto amor. E esse fim de noite, alma lavada e lustrada, não mudou a vida da gente não. Afora o sentimento que a gente leva no peito, essa era uma casa secreta, ninguém espiava pelas janelas, ninguém sabia quem fazia abrigo ali. Ninguém viu dentro de nós.
Por fora, eu continuava bem sozinha, no relógio parado, tempo lento. Esperando notícias do mundo, a caixa de correspondências passou a ser a parte mais freqüenta da casa. Quando meu avô construiu aquela caixinha, nunca havia me explicado o quanto doía à visão dela vazia. Não me explicou também como num espaço tão pequeno, que serve para guardar apenas cartas, coubesse tanto desafeto. Era como se abrir a pequena porta, dissolvesse a alma a simples visão da caixa vazia; dele eu não tinha notícias.
Por fora, o homem continuava a viajar, sempre atrasado, no calendário a correr, tempo veloz. Entre um trem e outro, planejava um novo destino e antes de chegar, já se via partir. Quando seu pai lhe deu a velha mala de couro, nunca havia lhe explicado o quanto dói viajar tanto e ver seus sapatos em um novo armário a cada dia. Não lhe contou também, do desespero que se sente, de acordar no meio da noite e não saber onde se está dormindo, de mim ele não tinha notícias.
Por muito tempo continuamos os dois, sapatos sem lugar e a caixa de correspondências vazia.
E encerrava assim o assunto.
Lá vou eu nesse dia que me encontrei com esse homem. Os meus sonhos eu mesma fabricava, era mais barato. Nunca carreguei ouro nem prata nas costas, nenhum par de brincos nas orelhas, somente um par de sandálias. Dentro dos vestido de trapo que eu tinha, ficava a sonhar meus sonhos baratos. Muito espaço no meu armário e muitos sonhos no baú. Na pequena cidade esse era meu destino.
Sim, essa é a parte em que nos encontramos. O bom homem e eu, num descompasso entre o mais puro linho e o vestido de pano. Quem viu de fora achou fora de moda esse nosso encontro. Aos olhos dos outros não era possível:
-Tão distintos assim, como preto e o marfim...
-Lua e sol em ballet desencontrado, no céu estrelado...
-Diamante e carvão, se misturando no mesmo chão...
Eis que se encontraram, ele vendendo e eu comprando. Uma espécie de comércio do amor. Os afetos ali expostos, como se fossem frutas em uma banca. Entre uma palavra e outra era inevitável uma feira de sentimentos. Seja lá o que os outros viam, não viam com os nossos olhos. Esse supremo senhor da verdade, onde não se consegue camuflar a alma. No final daquele dia cada um pra um lado. Ele novamente sem ter onde guardar tantos sapatos e eu sem saber onde guardar tanto amor. E esse fim de noite, alma lavada e lustrada, não mudou a vida da gente não. Afora o sentimento que a gente leva no peito, essa era uma casa secreta, ninguém espiava pelas janelas, ninguém sabia quem fazia abrigo ali. Ninguém viu dentro de nós.
Por fora, eu continuava bem sozinha, no relógio parado, tempo lento. Esperando notícias do mundo, a caixa de correspondências passou a ser a parte mais freqüenta da casa. Quando meu avô construiu aquela caixinha, nunca havia me explicado o quanto doía à visão dela vazia. Não me explicou também como num espaço tão pequeno, que serve para guardar apenas cartas, coubesse tanto desafeto. Era como se abrir a pequena porta, dissolvesse a alma a simples visão da caixa vazia; dele eu não tinha notícias.
Por fora, o homem continuava a viajar, sempre atrasado, no calendário a correr, tempo veloz. Entre um trem e outro, planejava um novo destino e antes de chegar, já se via partir. Quando seu pai lhe deu a velha mala de couro, nunca havia lhe explicado o quanto dói viajar tanto e ver seus sapatos em um novo armário a cada dia. Não lhe contou também, do desespero que se sente, de acordar no meio da noite e não saber onde se está dormindo, de mim ele não tinha notícias.
Por muito tempo continuamos os dois, sapatos sem lugar e a caixa de correspondências vazia.
Até que um dia calmaria,
como sempre se fazia,
não era mais a caixa vazia.
Aberta assim, como quem não quer nada,
até me espantei pelo que tanto esperava.
Era ele, o bom homem voltando.
Voltava de não sei onde, meu coração já era morno, já era meu outono.
Vinha que vinha chegando, ia quase que me obrigando.
Depois de tudo o que me fez passar,
desmanchei até o meu altar.
Quem é esse homem, que me fez rasgar a Sagrada Escritura?
De duvidar da fé em estranha vertigem, maldizendo entre os santos todos aqueles dias de tortura?
Hoje é o dia de sua chegada, fico acordada desde madrugada, coração na mão e pedra na outra.
Hoje é o dia de sua chegada, fico acordada desde madrugada, coração na mão e pedra na outra.
Mas não é bem assim, história de amor pra virar conto,
tem de ter algum desconto.
E acreditei de novo em tudo que era sagrado e aceitei de bom grado aquele bom homem.
Substituiu meus santos, encheu minha vida de espantos.
Contou suas histórias que em nenhuma carta caberia,
quanta história, Santa Maria!
E assim quem viu de fora, dizia que já era mais do que a hora. Minha caixa de correspondências lacrada combinava tão bem com seus sapatos fora da estrada.
E assim quem viu de fora, dizia que já era mais do que a hora. Minha caixa de correspondências lacrada combinava tão bem com seus sapatos fora da estrada.
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