O HOMEM DOS SAPATOS
Era um bom homem, havia rumores dele na minha cidade. Algum jornal velho que voava na praça e vinha me parar pregado no pé. O vento me obrigava a ler sobre ele. Eram notícias sobre seus muitos feitos. De andanças pelo mundo a gastar a sola dos sapatos, que, aliás, não tinha onde os guardar, pois não tinha casa. Eu me perguntava: -Pra que tanto sapato, meu Deus? E dizia em voz alta, um jeito que meus pensamentos acharam de se soltar por aí: falava sozinha. Alguns me tiravam como louca, não era não, era o jeito da solidão. Fazendo-me refletir agora mesmo no meio da praça, sobre as chinelas de um homem que eu nem sabia quem era. Ficava imaginando um único par de botinas dele que conteria na sua sola centenas de pedaços de terra. Um torrão de cada lugar que pisou no mundo. Melancólicos sapatos, que no entanto, não tinham onde se guardar. Em cada vila um armário diferente, mas sempre a mesma visão: tristes pés deitando-se sozinhos. Era um bom homem. Eu nunca pe...